Como gerir o orçamento com um salário baixo em 2026

Um guia para quem ganha o salário mínimo ou pouco mais e já está farto de ouvir falar da regra 50/30/20. Números portugueses, prioridades claras e nenhum sermão.

Um orçamento com um salário baixo é um plano feito de prioridades e não de percentagens. Em 2026, o salário mínimo é de 920 € brutos, o que dá 818,80 € líquidos por mês. Com este valor, as regras clássicas como a 50/30/20 deixam de fechar, porque a casa, a comida e os transportes levam quase tudo antes de chegares a meio do mês.

Este guia não te vai dizer que basta cortar no café. Vai mostrar-te como montar um orçamento quando todos os meses andas no limite. Sem culpas, sem conselhos vazios e sem partir do princípio de que ganhas a média nacional.

O essencial

  • Salário mínimo em 2026: 920 € brutos, 818,80 € líquidos, pagos 14 vezes por ano (Decreto-Lei n.º 139/2025)
  • A regra 50/30/20 não fecha com um salário baixo. Usa os 4 Alicerces Martia: Teto, Mesa, Caminho, Almofada
  • Uma poupança realista com um salário baixo é de 20 a 50 € por mês, não 10% do ordenado. A regularidade conta mais do que o valor
  • A maior poupança está nos custos fixos: telecomunicações, conta bancária, energia, subscrições
  • Ver todas as despesas sem as escrever substitui a disciplina: vês o problema antes de ele virar crise

Quanto é ganhar pouco em Portugal em 2026? Os números reais

Ganhar pouco em Portugal, em 2026, é quase sempre ganhar entre o salário mínimo e pouco mais: o intervalo em que o orçamento é sobretudo um plano para chegar ao fim do mês. Desde 1 de janeiro de 2026, o salário mínimo nacional é de 920 € brutos por mês, mais 50 € do que os 870 € de 2025 (Decreto-Lei n.º 139/2025).

São números oficiais. Mas para quem os recebe, a pergunta que interessa não é "quanto é". É "quanto sobra depois do essencial".

Salário mínimo em 2026: bruto e líquido

Salário mínimo nacional em 2026, para um trabalhador por conta de outrem.

ParâmetroValor em 2026Nota
Salário mínimo bruto920 €+50 € face a 2025
Segurança Social (11%)101,20 €Desconto do trabalhador
Retenção na fonte de IRS0 €O salário mínimo está dispensado de retenção
Salário mínimo líquido818,80 €Por mês
Total bruto anual12 880 €14 pagamentos: 12 meses e os subsídios de férias e de Natal

O que dizem os números do INE

Se ganhas pouco, não estás sozinho. Em 2024, metade dos trabalhadores em Portugal ganhava menos de 980 € líquidos por mês (INE, ganho mediano mensal líquido). O limiar de risco de pobreza para um adulto sozinho ficou em 723 € por mês, com os rendimentos de 2024, e a taxa de risco de pobreza em 15,4% (INE, Inquérito às Condições de Vida e Rendimento). Não é um problema de nicho: é a realidade de uma parte grande do país.

No modelo que vais ver mais abaixo, para uma pessoa sozinha com o salário mínimo, a casa, a comida e os transportes deixam pouco mais de cem euros livres por mês. E é com isso que se tem de pagar o dentista, a reserva e, de vez em quando, um jantar com amigos.

Ganhar pouco em Portugal, em números

818,80 €salário mínimo líquido em 2026 (920 € brutos, Decreto-Lei n.º 139/2025)
980 €ganho mediano mensal líquido em 2024 (INE)
28,6%dizem que lhes sobra dinheiro no fim do mês (CNSF, 2023)
13,3%não aguentariam um mês sem o rendimento principal (CNSF, 2023)

Fontes: Diário da República, Decreto-Lei n.º 139/2025, INE via EDUSTAT, ganho mediano mensal líquido, CNSF, 4.º Inquérito à Literacia Financeira (2023)

Porque é que fazer um orçamento com um salário baixo é mesmo difícil

Gerir o orçamento com um rendimento baixo é difícil por razões que nada têm a ver com disciplina ou inteligência. É uma questão de aritmética, de cansaço mental e de falta de margem para errar. Sejamos francos: quando o ordenado mal cobre o essencial, qualquer imprevisto, uma consulta, uma avaria na máquina, uma fatura da luz mais alta, não é um incómodo. É uma pequena crise.

No 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2023), só 28,6% dos inquiridos concordavam com a frase "sobra-me dinheiro no fim do mês". E 17,5% disseram que por vezes o rendimento não chega para o custo de vida. Desses, 52,8% cortaram despesas, 38,1% usaram poupanças e 29,8% pediram dinheiro emprestado à família ou a amigos.

Porque é que "poupa 10%" não funciona

O conselho de guardar 10% do ordenado foi pensado para quem tem uma parte do rendimento livre para cortar. Com o salário mínimo, 10% são 81,88 € por mês: um valor que muitas vezes simplesmente não existe, porque o orçamento já está todo comprometido com custos fixos. Fingir que não é assim só gera frustração e faz desistir de controlar o dinheiro.

O que é o efeito da escassez (scarcity)?

O efeito da escassez é o mecanismo pelo qual a falta de dinheiro ocupa a atenção e empurra as decisões para o curto prazo. O livro Scarcity: Why Having Too Little Means So Much, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir (Times Books, 2013), mostra como viver no limite estreita o horizonte aos próximos dias, o que aumenta a probabilidade de escolhas caras: um crédito rápido, um cartão revolving, compras a prestações. Não são "maus hábitos". É o efeito previsível de não ter margem.

Três barreiras reais de um salário baixo

  1. Nenhuma margem para errar. Com 818,80 € líquidos, uma despesa inesperada de 150 € (uma consulta no privado, uma reparação, uns sapatos para o trabalho) é saldo negativo imediato ou um pedido de ajuda. Não há reserva, porque não houve de onde a tirar.
  2. O custo mental de pensar em dinheiro. Contar cada euro, todos os dias, consome atenção e energia que farias melhor em usar para descansar, estudar ou procurar um trabalho melhor. É real, e ninguém tem o direito de te dizer que devias "gerir melhor".
  3. Custos fixos que não encolhem. A renda, as contas e os transportes custam o mesmo quer ganhes 818 € quer o dobro. Com um salário mais alto pesam uma parte; com um salário baixo pesam quase tudo. Não são "más escolhas": é aritmética.

Se te revês nisto, não estás sozinho. E a culpa não é tua.

Vê exatamente para onde vai cada euro

Com um salário baixo, ver conta mais do que a disciplina. A Martia liga-se às tuas contas e mostra para onde foi o dinheiro, sem cadernos nem folhas. Depois perguntas, em português, "quanto gastei esta semana?" e a resposta vem das tuas transações.

Fala com a Martia

Os 4 Alicerces Martia: como montar o orçamento com um salário baixo

Os 4 Alicerces Martia são um método de prioridades para rendimentos baixos, em que o orçamento se divide em quatro camadas, por uma ordem fixa: Teto, Mesa, Caminho e Almofada. Cada camada fica paga por inteiro antes de passares à seguinte. Não são percentagens: é uma ordem.

Porque é que funciona melhor do que a 50/30/20 com pouco dinheiro? Porque não finge que tens escolha onde não tens. A renda e a luz não são "desejos": são a base. A ordem protege-te do pior cenário, que é ficar sem casa, sem comida ou sem forma de chegar ao trabalho.

Alicerce 1: Teto (casa e contas)

Renda ou prestação da casa, luz, água, gás, internet se não vier no pacote, seguro da casa. Sem isto, não há conversa. É o primeiro dinheiro a sair, logo a seguir ao ordenado.

Alicerce 2: Mesa (comida e saúde)

Supermercado (não refeições fora), produtos de higiene, medicamentos e taxas da farmácia. É o que te mantém com saúde e com força para trabalhar. Aqui compensa comprar com lista e comparar o Continente, o Pingo Doce, o Lidl ou o Minipreço mais perto de ti.

Alicerce 3: Caminho (transportes e comunicações)

Passe mensal, combustível, telemóvel e o mínimo de internet. Tudo o que te permite chegar ao trabalho e manter o contacto com as pessoas.

Alicerce 4: Almofada (reserva, nem que sejam 20 €)

O que sobra vai para uma conta à parte. Nem que sejam 5 € por semana. A almofada não é um luxo: é o teu seguro contra o crédito rápido.

Na prática: um orçamento de 818,80 € passo a passo

Modelo ilustrativo para uma pessoa sozinha com o salário mínimo líquido de 2026. Os valores reais dependem da cidade, da casa e da tua situação.

AlicerceValor% do ordenadoSobra
1. Teto380 €46%438,80 €
2. Mesa220 €27%218,80 €
3. Caminho90 €11%128,80 €
4. Almofada25 €3%103,80 €
Livre para viver103,80 €13%-

103,80 € livres não é muito. Mas é um número concreto, que podes planear, e não uma promessa vaga de que "talvez sobre alguma coisa". Isso já é um orçamento. Se a renda na tua cidade passa largamente destes valores, a ordem mantém-se: o Teto é pago primeiro e as outras camadas ajustam-se ao que fica.

E se um dia o rendimento subir, a regra 50/30/20 aplicada ao orçamento familiar passa a fazer sentido. Até lá, a ordem vale mais do que a percentagem.

Como baixar os custos fixos quando cada euro conta

Os custos fixos são as despesas que voltam todos os meses, decidas o que decidires: renda, energia, telecomunicações, seguros, subscrições, comissões bancárias. Com um salário baixo, é aqui que está a maior margem para poupar. A razão é simples: uma mudança feita uma vez continua a poupar todos os meses, sem precisar de disciplina diária.

Sete custos fixos para rever

  1. Telecomunicações. Os pacotes da MEO, da NOS, da Vodafone ou da NOWO raramente descem sozinhos. Se o período de fidelização já acabou, tens margem para negociar ou mudar para um tarifário mais simples. Muitas vezes, uma chamada chega.
  2. Conta bancária com comissões. Se pagas manutenção de conta, cartão ou transferências, podes converter a conta numa conta de serviços mínimos bancários. Em 2026, as comissões desta conta não podem passar de 5,37 € por ano (1% do IAS, Banco de Portugal), com cartão de débito e transferências incluídos, desde que não tenhas outra conta à ordem.
  3. Subscrições que já não usas. Netflix, Spotify, Disney+, o ginásio, o armazenamento na nuvem: saem por débito direto ou cartão todos os meses, sem ninguém dar por elas. O guia sobre como cortar nas subscrições mostra como as encontrar no extrato.
  4. Seguros. Revê as apólices do carro, da casa e de saúde. O mesmo nível de cobertura pode custar bastante menos noutra seguradora, e alguns bancos juntam seguros ou serviços extra à conta que podes dispensar.
  5. Luz e gás. Confirma se tens direito à tarifa social de energia. Em janeiro de 2026, o desconto médio na fatura da eletricidade era de 33,8% e no gás natural de 31,2%, sem taxas e impostos (ERSE). A atribuição é automática, mas se achas que tens direito e não te foi aplicada, pedes um comprovativo à Segurança Social ou às Finanças e entregas ao teu comercializador.
  6. Pequenas prestações. O telemóvel, o portátil ou a máquina de lavar comprados a prestações, os pagamentos fracionados, o cartão de crédito da loja. Somadas, três prestações pequenas pesam mais do que parece. Anota quando acaba cada uma e decide já para onde vai esse dinheiro quando acabar, para não entrar logo noutra.
  7. Planos premium em apps. Fotos, treino, sono, jogos: cada plano pago parece pouco sozinho. Vê quais usas mesmo.

A regra de uma chamada, uma poupança

Com um salário baixo, as mudanças que mais rendem são as que dão trabalho uma vez e funcionam durante doze meses. Se uma chamada à operadora baixar o pacote em 10 € por mês, são 120 € num ano. Para poupar o mesmo a cortar cafés, tens de decidir de outra forma todos os dias, durante um ano. Qual das duas é mais realista?

Se queres ver para onde vai o dinheiro antes de decidir o que cortar, o guia para onde vai o meu dinheiro mostra as despesas invisíveis que aparecem quando somas três meses de extrato. E o guia sobre como controlar o orçamento familiar parte do zero.

É possível poupar com um salário baixo? Sim, mas de outra forma

Poupar com um rendimento baixo não é um exercício de disciplina. É um exercício de automatização e de realismo. Se alguém te diz que "basta guardar 10%", ou ganha bem e já não se lembra de como era, ou nunca tentou com 818 € por mês.

O método das quantias pequenas: regularidade antes do valor

A estratégia realista é começar por um valor que não sentes. 5 € por semana. 20 € por mês. Tem de ser pequeno o bastante para não disparar o pânico do "não tenho dinheiro", porque senão cancelas a transferência na primeira semana difícil.

5 € por semana durante um ano são 260 €. É a tua primeira reserva: o valor que, quando a máquina avaria, te poupa um crédito rápido ou um pedido à família. E faz diferença: no inquérito do CNSF de 2023, 13,3% dos portugueses disseram que não aguentariam nem um mês de despesas se perdessem o rendimento principal.

A Regra da Primeira Transferência

A Regra da Primeira Transferência diz: poupa logo a seguir ao ordenado, antes de começares a gastar. Não no fim do mês, quando "vês o que sobrou", porque não vai sobrar nada. Agenda uma transferência automática para uma conta à parte no dia a seguir ao ordenado. E aproveita os subsídios: com o salário mínimo, os de férias e de Natal são dois ordenados a mais por ano, e pôr parte deles na almofada acelera tudo sem mexer no mês. O guia sobre como criar um fundo de emergência explica os passos seguintes.

Mito vs. realidade

Mito: "Quem ganha pouco não tem como poupar, por isso não vale a pena tentar."

Realidade: quando o dinheiro não chega, a reserva é o que decide entre resolver sozinho e pedir. No inquérito do CNSF de 2023, entre quem ficou sem rendimento suficiente para o custo de vida, 38,1% resolveram com poupanças e 29,8% tiveram de pedir dinheiro à família ou a amigos. As primeiras poucas centenas de euros são as que mais protegem: do descoberto, do cartão revolving e do crédito rápido. Poupar 20 € por mês não é "inútil". É comprar tranquilidade.

Onde guardar uma reserva pequena?

Numa conta poupança separada, no teu banco ou noutro. O importante é que (1) seja separada, fora do saldo que vês todos os dias, (2) deixe mexer no dinheiro de imediato numa emergência a sério e (3) não tenha comissões. Produtos como os Certificados de Aforro fazem mais sentido quando a reserva já cobre alguns meses: até lá, conta mais ter o dinheiro à mão do que o juro.

Automatiza em vez de te obrigares à disciplina

Com um salário baixo, contar despesas à mão desfaz-se depressa. A Martia liga-se aos teus bancos, põe cada movimento na sua categoria e responde, em português, a perguntas como "onde é que posso cortar este mês?". Custa 9 € por mês ou 59 € por ano: faz a conta e decide se te compensa.

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Os 5 erros de orçamento mais comuns com um salário baixo

Os erros de orçamento com rendimentos baixos vêm quase sempre de tentar aplicar conselhos escritos para quem ganha mais, e de uma pessoa se culpar quando não resultam. Estas são as armadilhas que mais se repetem, e como as evitar.

  1. Tratar a regra 50/30/20 como uma religião. Com o salário mínimo, as necessidades levam muito mais de metade do ordenado. Proporções pensadas para rendimentos mais altos não servem a 818 €. Prioriza pelos Alicerces, não por percentagens.
  2. Recorrer ao crédito rápido para "tapar buracos". Um crédito pessoal pequeno, o cartão revolving ou o pagamento fracionado parecem resolver o mês e ficam caros depressa. Antes de assinares, compara a TAEG com os máximos que o Banco de Portugal publica todos os trimestres.
  3. Deixar prestações em atraso sem falar com o banco. Uma prestação falhada traz juros de mora e encargos. Mas a lei obriga o banco a integrar-te no PERSI, o procedimento de regularização de incumprimento (Decreto-Lei n.º 227/2012), e a Rede de Apoio ao Cliente Bancário dá apoio gratuito. Falar cedo sai mais barato do que esperar.
  4. Guardar a poupança na conta do dia a dia. Se 100 € de reserva estão no mesmo saldo que as despesas, acabam gastos. Não é uma questão de carácter, é de visibilidade. Solução: uma conta à parte, nem que seja no mesmo banco.
  5. Ignorar os apoios a que tens direito. A tarifa social de energia, o abono de família, a conta de serviços mínimos bancários: não são favores, são o sistema a funcionar. Se cumpres as condições, tens direito a eles.

Se a poupança "não sai" mesmo quando o ordenado é razoável, o guia porque é que não consigo poupar dinheiro explica as causas de estrutura.

Apoios e ferramentas para quem ganha pouco em Portugal

Gerir um orçamento com um rendimento baixo fica mais fácil quando usas ferramentas que tiram esforço e os apoios a que tens direito. A lista não é completa, mas cobre o essencial em Portugal em 2026.

Apoios do sistema

  • Tarifa social de eletricidade e gás natural. Atribuída automaticamente pela Direção-Geral de Energia e Geologia a quem recebe, por exemplo, abono de família, prestação de desemprego, rendimento social de inserção ou complemento solidário para idosos, ou a quem tem um rendimento anual até 6 272,64 €, mais 50% por cada pessoa do agregado sem rendimentos (ERSE, 2026).
  • Conta de serviços mínimos bancários. Todos os bancos que recebem depósitos são obrigados a oferecê-la, com comissões limitadas a 5,37 € por ano em 2026.
  • Prestações da Segurança Social. Abono de família, rendimento social de inserção, prestações de desemprego: as condições e os valores confirmas na Segurança Social Direta ou num balcão.
  • PERSI e Rede de Apoio ao Cliente Bancário. Se tens um crédito em risco de incumprimento, o banco tem de te propor soluções no PERSI, e as entidades da rede dão informação e apoio gratuitos (Decreto-Lei n.º 227/2012).

Ferramentas digitais: ver em vez de contar

As apps de finanças ajudam mais quem mais precisa: quem conta cada euro. A app do teu banco já mostra os movimentos dessa conta. A Martia junta as contas de vários bancos por open banking, põe cada movimento na sua categoria e responde a perguntas em português, como "para onde foi o dinheiro esta semana?". Não escreves compras nem guardas talões. Custa 9 € por mês ou 59 € por ano, cerca de 4,92 € por mês no plano anual, e isso também conta num orçamento apertado: só compensa se te ajudar a encontrar mais do que custa.

Se estás a decidir entre uma app e uma folha de cálculo, a comparação orçamento familiar: Excel ou app? põe as duas lado a lado.

Perguntas frequentes

Qual é o salário mínimo líquido em 2026?

Em 2026, o salário mínimo nacional é de 920 € brutos por mês, fixado pelo Decreto-Lei n.º 139/2025 com efeitos a 1 de janeiro. Quem o recebe desconta 11% para a Segurança Social, ou seja 101,20 €, e está dispensado de retenção na fonte de IRS, por isso recebe 818,80 € líquidos. Como o ordenado em Portugal é pago 14 vezes por ano, com os subsídios de férias e de Natal, o total anual chega a 12 880 € brutos.

Como fazer um orçamento com o salário mínimo?

Com 818,80 € líquidos, o orçamento faz-se por prioridades e não por percentagens. A regra 50/30/20 parte do princípio de que metade do rendimento chega para as necessidades, e com o salário mínimo a casa, a comida e os transportes costumam levar muito mais do que isso. Em vez disso, soma os custos fixos, tira-os ao ordenado e divide o que sobra pela comida, pelos transportes e por uma pequena reserva. A Regra dos 4 Alicerces Martia dá a ordem: Teto, Mesa, Caminho, Almofada. Poupa nem que sejam 20 € por mês: a regularidade conta mais do que o valor.

É possível poupar com um salário baixo?

É, mas com outra definição de poupança. Em vez de tentares guardar 10% do ordenado, começa com 5 € por semana, por transferência automática para uma conta à parte, logo a seguir ao dia em que o ordenado cai. Ao fim de um ano são 260 €, o suficiente para uma avaria sem pedir dinheiro emprestado. Segundo o 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2023), 13,3% dos portugueses não aguentariam nem um mês de despesas se perdessem o rendimento principal. Uma reserva pequena muda muito, e a chave é automatizá-la.

Onde posso cortar despesas sem cortar no essencial?

Nos custos fixos, não nos pequenos prazeres. O pacote de telecomunicações da MEO, da NOS, da Vodafone ou da NOWO vale uma chamada quando o período de fidelização acaba. A conta bancária pode passar a conta de serviços mínimos bancários, que em 2026 custa no máximo 5,37 € por ano em comissões (Banco de Portugal). As subscrições que já não usas saem por débito direto todos os meses sem ninguém dar por elas. E quem tem direito à tarifa social de energia paga, em média, menos 33,8% na eletricidade (ERSE, janeiro de 2026). Cortar o café faz sentir que se está a fazer alguma coisa; rever os fixos faz a diferença.

Que apoios existem em Portugal para quem ganha pouco?

Há vários, e muitos não precisam de pedido. A tarifa social de eletricidade e de gás natural é atribuída automaticamente pela Direção-Geral de Energia e Geologia a quem recebe prestações como o abono de família, a prestação de desemprego, o rendimento social de inserção ou o complemento solidário para idosos, ou a quem tem um rendimento anual até 6 272,64 €, acrescido de 50% por cada pessoa do agregado sem rendimentos (ERSE, 2026). A conta de serviços mínimos bancários limita as comissões. E se tens um crédito em atraso, o banco é obrigado a abrir o PERSI, e a Rede de Apoio ao Cliente Bancário dá apoio gratuito (Decreto-Lei n.º 227/2012). Na Segurança Social confirmas as prestações a que tens direito.

A regra 50/30/20 funciona com o salário mínimo?

Na forma pura, não. A regra 50/30/20 assume que 50% do rendimento chega para as necessidades. Com 818,80 € líquidos, só a renda e as contas da casa podem levar metade do ordenado, e a comida e os transportes vêm por cima. Segundo o INE, a habitação já pesa 39,3% da despesa média de um agregado em Portugal (Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023), e com um rendimento mais baixo a mesma renda pesa mais. Por isso, com um salário baixo, usa uma ordem de prioridades, como os 4 Alicerces Martia, e passa para a 50/30/20 quando o rendimento subir.

Como controlar as despesas quando cada euro conta?

Com visibilidade, não com força de vontade. Anotar despesas à mão costuma falhar ao fim de umas semanas: esqueces pagamentos pequenos e acabas por desistir. O que funciona é ver todos os movimentos num só sítio, sem os escrever. A app do teu banco já mostra parte, e algumas categorizam. A Martia liga-se às tuas contas por open banking, põe cada movimento na sua categoria e responde em português a perguntas como "quanto gastei em supermercado esta semana?". Custa 9 € por mês ou 59 € por ano, por isso faz a conta antes: só vale a pena se te ajudar a encontrar mais do que isso.

Quanto consigo poupar com o salário mínimo?

Com 818,80 € líquidos, um objetivo realista nos primeiros seis a doze meses é de 20 a 50 € por mês. 20 € por mês dão 240 € num ano; 50 € dão 600 €. Os subsídios de férias e de Natal ajudam: cada um é um ordenado a mais, e pôr parte dele na reserva acelera tudo sem mexer no orçamento do mês. Valores maiores só aparecem quando cortas nos custos fixos, como o pacote de telecomunicações, a conta bancária ou os seguros. Mais importante do que o valor é a transferência ser automática: poupar o que sobra no fim do mês quase nunca funciona.

Vale a pena ter um orçamento quando se ganha pouco?

Vale, e mais do que quando se ganha bem, porque cada decisão às cegas custa mais. Não se trata de folhas de Excel nem de percentagens rígidas, mas de saber para onde vai o dinheiro e que despesas podem parar sem perder qualidade de vida. O livro Scarcity, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir (2013), mostra que a escassez ocupa a atenção e empurra as decisões para o curto prazo. Um orçamento simples, como os 4 Alicerces Martia (Teto, Mesa, Caminho, Almofada), mais uma forma de ver cada movimento, devolve essa atenção.

Fontes

  • Decreto-Lei n.º 139/2025, que fixa a retribuição mínima mensal garantida em 920 € a partir de 1 de janeiro de 2026, diariodarepublica.pt
  • Montepio (2026), Salário mínimo nacional em 2026: valor e descontos, montepio.org
  • INE (2025), Inquérito ao Emprego: ganho mediano mensal líquido de 980 € em 2024, edustat.pt
  • INE (2025), Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, rendimentos de 2024: limiar de risco de pobreza e taxa de risco de pobreza, ine.pt
  • INE (2023), Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023, ine.pt
  • Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2024), Relatório do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa 2023, todoscontam.pt
  • ERSE (2026), Tarifa social: eletricidade e gás natural, janeiro de 2026, erse.pt
  • Banco de Portugal (2026), Serviços mínimos bancários, bportugal.pt
  • Decreto-Lei n.º 227/2012, que cria o PERSI e a rede de apoio a clientes bancários endividados, pgdlisboa.pt
  • Mullainathan, S. e Shafir, E. (2013), Scarcity: Why Having Too Little Means So Much, Times Books, macmillan.com

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