Como sair das dívidas: plano passo a passo em 2026

Tens um cartão sempre no limite, dois créditos pessoais e a sensação de que o ordenado já chega comprometido? Este guia mostra como pôr as dívidas por ordem, escolher um método de pagamento e saber a quem pedir ajuda em Portugal. Sem truques e sem sermões.

Sair das dívidas é, antes de tudo, uma questão de ordem: saber exatamente quanto deves, parar de criar dívida nova e atacar uma dívida de cada vez com o dinheiro que sobra das prestações mínimas. Não importa tanto quanto deves hoje. Importa teres um plano e saberes qual é o próximo passo.

Se estás a ler isto com um nó no estômago, não és o único. Segundo o 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2023), 17,5% dos portugueses disseram que por vezes o rendimento não chega para o custo de vida. Isto não é falta de carácter. É aritmética, e a aritmética resolve-se.

O essencial

  • O primeiro passo é sempre a lista completa das dívidas: saldo, TAEG, prestação mínima e prazo de cada uma
  • Dois métodos clássicos: bola de neve (da dívida mais pequena para a maior) e avalanche (da taxa mais alta para a mais baixa)
  • Pagar só os mínimos quase nunca chega: o que encurta o caminho é o pagamento extra, mesmo pequeno
  • Uma pequena reserva impede que a primeira avaria volte para o cartão de crédito
  • Se já não consegues pagar, o PERSI e a RACE existem para isso, e a RACE é gratuita (Decreto-Lei n.º 227/2012)

Porque é que as dívidas pesam mais do que parece

Uma dívida com juros é o juro composto a trabalhar ao contrário: o mesmo mecanismo que faz crescer uma poupança faz crescer o que deves, e num cartão de crédito trabalha a favor do banco. No 4.º trimestre de 2026, a TAEG máxima que o Banco de Portugal permite nos cartões de crédito, descobertos e linhas de crédito é de 18,5%. É o teto legal, e é caro.

Um exemplo com números

Imagina 3 000 € num cartão de crédito com uma taxa de juro de 18% ao ano. Se pagares só 3% do saldo por mês, com um mínimo de 25 €, demoras cerca de 129 meses, ou seja quase 11 anos, a pagar tudo, e os juros somam perto de 2 430 €. Se pagares 100 € fixos por mês, a mesma dívida acaba em 41 meses e os juros ficam em cerca de 1 015 €. A diferença não está no cartão. Está no valor que decides pagar.

Exemplo ilustrativo, com juros calculados todos os meses sobre o saldo. As condições do teu cartão (prestação mínima, comissões, anuidade) estão no contrato e no extrato.

O custo que não aparece no extrato

As dívidas também custam atenção e sono. O livro Scarcity, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir (Times Books, 2013), descreve como a falta de dinheiro ocupa a atenção e empurra as decisões para o curto prazo, e é aí que um pagamento fracionado ou um crédito rápido parece resolver o mês. Não é fraqueza: é o que acontece a qualquer pessoa sem margem. Sair das dívidas não é só uma decisão financeira. É devolver-te espaço para pensar noutras coisas.

Dívidas em Portugal, em números

18,5%TAEG máxima em cartões de crédito e descobertos, 4.º trimestre de 2026 (Banco de Portugal)
15,0%TAEG máxima no crédito pessoal para outras finalidades, incluindo consolidado, 4.º trimestre de 2026 (Banco de Portugal)
17,5%dizem que por vezes o rendimento não chega para o custo de vida (CNSF, 2023)
29,8%desses resolveram a última vez com dinheiro emprestado por família ou amigos (CNSF, 2023)

Fontes: Banco de Portugal, taxas máximas do 4.º trimestre de 2026 (Jornal Económico, 2026), CNSF, 4.º Inquérito à Literacia Financeira (2023)

Passo 1: quanto deves, ao certo?

Antes de escolheres um método, precisas do retrato completo. A maioria das pessoas sabe "mais ou menos" quanto deve, e "mais ou menos" não chega para fazer um plano. A lista das dívidas é o documento mais importante de todo o processo.

O que anotar em cada dívida

  1. Saldo em dívida. Quanto falta pagar hoje, não o valor que pediste emprestado.
  2. TAEG ou taxa de juro. O custo anual do crédito, que está no contrato e na ficha de informação normalizada.
  3. Prestação mínima. O valor mínimo que tens de pagar por mês para não entrar em atraso.
  4. Prazo. Quando acaba a dívida se pagares só o mínimo.

Entra tudo: o cartão de crédito da loja, o descoberto da conta à ordem, os pagamentos fracionados com a Klarna ou a SeQura, o crédito pessoal na Cofidis, na Cetelem ou na Credibom, e também o dinheiro que um familiar te emprestou. Uma dívida esquecida é uma dívida que estraga o plano.

O teto legal de cada tipo de dívida

TAEG máximas que o Banco de Portugal fixou para contratos de crédito aos consumidores celebrados no 4.º trimestre de 2026. São tetos legais, não taxas típicas: o teu contrato pode ter uma taxa mais baixa.

Tipo de dívidaTAEG máximaPrioridade
Cartão de crédito, descoberto, linha de crédito18,5%Alta
Crédito pessoal (lar, obras, consolidado, outras finalidades)15,0%Alta a média
Crédito automóvel, carro usado14,3%Média
Crédito automóvel, carro novo11,2%Média
Crédito pessoal para educação, saúde ou transição energética8,2%Média a baixa
Crédito habitaçãoNão incluído (regime próprio)Baixa (prazo longo)

O crédito habitação é quase sempre a dívida maior e a mais barata por euro. Em 2024, o montante médio de um novo crédito à habitação foi de 142 791 €, com um prazo médio de 30,6 anos (Banco de Portugal). Amortizar a casa antes de pagar um cartão a 18% raramente faz sentido.

Onde confirmar o que deves

O Mapa de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal é gratuito e mostra os créditos registados em teu nome na Central de Responsabilidades de Crédito, incluindo as situações em que és fiador. Pede-o online, com a Chave Móvel Digital ou o Cartão de Cidadão. Os saldos do dia a dia, esses, estão na app de cada banco ou no extrato.

Os 3 Tempos Martia: travar, respirar, atacar

Os 3 Tempos Martia são uma ordem de ação para sair das dívidas em três fases: primeiro travas a dívida nova, depois ganhas fôlego com uma pequena reserva e as prestações em dia, e só então atacas as dívidas uma a uma. Saltar um tempo é a forma mais comum de o plano falhar.

Tempo 1: Travar

Enquanto entra dívida nova, nenhum método resulta. Tira o cartão de crédito da carteira, desativa as compras online com esse cartão na app do banco e diz que não aos pagamentos fracionados até ao fim do plano. Não é para sempre. É até o buraco parar de crescer.

Antes de montar um plano de pagamento, vale a pena perceber o que fazer quando gastas mais do que ganhas, para que as dívidas deixem de crescer todos os meses.

Tempo 2: Respirar

Paga todas as prestações mínimas e cria uma reserva pequena numa conta à parte, por exemplo 500 €. Sem ela, a primeira avaria do carro ou a primeira consulta volta para o cartão e desfaz meses de esforço. Se nem os mínimos consegues pagar, este é o momento de falar com o banco e pedir ajuda (vê mais abaixo o PERSI e a RACE).

Tempo 3: Atacar

Com a dívida travada e alguma folga, escolhes um método, bola de neve ou avalanche, e pões todo o dinheiro extra numa dívida de cada vez. Quando ela acaba, a prestação que ficou livre passa para a seguinte. É aqui que o caminho encurta.

Método bola de neve: começa pela dívida mais pequena

O método bola de neve (em inglês, debt snowball) é a estratégia de pagar as dívidas do saldo mais pequeno para o maior, sem olhar para a taxa de juro. Pagas o mínimo em todas e pões todo o dinheiro extra na mais pequena. Quando ela acaba, a prestação dela junta-se ao extra e vai para a seguinte, e o valor que atacas cresce como uma bola de neve.

Um exemplo em euros

Imagina três dívidas, com 150 € por mês para pagamento extra:

Exemplo ilustrativo. Os juros são calculados todos os meses sobre o saldo; as prestações mínimas mantêm-se fixas.

DívidaSaldoTaxa anualPrestação mínima
A: eletrodoméstico a prestações900 €7%45 €
B: cartão de crédito2 500 €18%75 €
C: crédito pessoal6 000 €12%160 €
Total9 400 €-280 €

Com a bola de neve, pagas 280 € de mínimos e pões os 150 € extra na dívida A. A dívida A acaba ao 5.º mês, a B ao 14.º e a C ao 26.º. Pagas cerca de 1 390 € de juros no total. Se pagasses só os mínimos, demoravas 48 meses e os juros chegavam a cerca de 2 610 €.

Porque é que a bola de neve funciona

Porque fechar dívidas motiva. David Gal e Blakeley McShane, da Kellogg School of Management, analisaram dados de uma empresa de regularização de dívidas e publicaram no Journal of Marketing Research (2012) que fechar contas de dívida, uma a uma, está associado a uma maior probabilidade de eliminar a dívida toda, independentemente do valor das contas fechadas. Pequenas vitórias ajudam a continuar.

Método avalanche: paga menos juros

O método avalanche (em inglês, debt avalanche) é a estratégia de pagar as dívidas da taxa de juro mais alta para a mais baixa. Pagas o mínimo em todas e pões o dinheiro extra na mais cara. É a opção que custa menos juros, mas pode demorar mais até fechares a primeira dívida.

O mesmo exemplo, com avalanche

Com as mesmas três dívidas, a ordem passa a ser B (18%), C (12%) e A (7%). O cartão acaba ao 13.º mês, a dívida A ao 22.º e o crédito pessoal ao 25.º. Os juros ficam em cerca de 1 314 €: menos 76 € e um mês mais cedo do que com a bola de neve.

Neste exemplo, a diferença é pequena, e isso é informação útil: o que mais pesa é o pagamento extra de 150 € por mês, não o método. Quanto mais distantes forem as taxas das tuas dívidas, e quanto maior for a dívida cara, mais a avalanche compensa.

Quando a avalanche é a melhor escolha

  • Tens um cartão ou um descoberto perto dos 18,5% que come dezenas de euros de juros por mês.
  • Queres pagar o mínimo possível de juros no total.
  • Não precisas de ver uma dívida fechada depressa para manter o plano.

Bola de neve ou avalanche: qual escolher?

Os dois métodos funcionam, desde que os cumpras. A melhor escolha é a que consegues manter durante dois ou três anos, e isso depende mais de ti do que da matemática.

Resumo dos dois métodos.

Bola de neveAvalanche
OrdemDo saldo mais pequeno para o maiorDa taxa mais alta para a mais baixa
VantagemVitórias rápidas, menos dívidas abertasMenos juros no total
RiscoPagas um pouco mais de jurosA primeira vitória pode demorar
Indicado paraQuem já desistiu de planos antesQuem tem uma dívida muito mais cara do que as outras

O híbrido: apagar o fogo primeiro

Se tens um cartão ou um descoberto com uma taxa muito acima das outras dívidas, paga-o primeiro, como na avalanche, porque é aí que os juros mais te custam. Depois passa para a bola de neve nas dívidas mais baratas, para ganhares vitórias rápidas. Tens a eficiência de uma e a motivação da outra.

Pergunta à Martia quanto pagas em prestações

Fazer a lista à mão, conta a conta, é o passo em que muita gente desiste. A Martia junta as contas dos teus bancos e responde em português a perguntas como "quanto paguei ao cartão nos últimos três meses?", com base nos teus movimentos reais. Só lê os dados: nunca mexe no dinheiro.

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Como fazer o orçamento enquanto pagas as dívidas

Sem orçamento, nenhum método de pagamento resulta, porque é o orçamento que encontra o dinheiro extra. O objetivo não é cortar tudo. É saber, antes do mês começar, para onde vai cada euro.

A ordem de prioridades

  1. O essencial. Renda ou prestação da casa, comida, luz, água, gás, transportes para o trabalho, medicamentos.
  2. As prestações mínimas de todas as dívidas. Para não pagares juros de mora nem ficares com prestações em atraso registadas na Central de Responsabilidades de Crédito.
  3. A pequena reserva. Até chegares ao valor que definiste, por exemplo 500 €.
  4. O pagamento extra da dívida que estás a atacar. Tudo o que sobra depois dos três primeiros pontos, menos o mínimo para viveres.
  5. O resto da vida. Um jantar fora, um presente, uma escapadela. Um plano sem nenhum prazer é um plano que se abandona.

Onde procurar o dinheiro extra

Não precisas de ganhar mais para pagar mais depressa. Muitas vezes chega rever três meses de extrato e ver o que sai sem dares por isso. As categorias onde o dinheiro costuma escapar são as mesmas em quase todas as casas:

  • Subscrições. Netflix, Spotify, Disney+, o ginásio, o armazenamento na nuvem. O guia sobre como cortar nas subscrições mostra como as encontrar no extrato.
  • Refeições fora e entregas. Cafés, almoços, Uber Eats, Glovo. Somados ao fim do mês, surpreendem.
  • Compras por impulso. Sobretudo online e a prestações, que parecem baratas porque só vês a primeira.
  • Custos fixos que nunca revês. O pacote da MEO, da NOS ou da Vodafone, os seguros, as comissões da conta.

Se não sabes por onde começar, o guia para onde vai o meu dinheiro ajuda a encontrar as despesas invisíveis, e o guia sobre como controlar o orçamento familiar parte do zero.

Como pagar as dívidas mais depressa: 6 formas

Cada euro extra que vai para a dívida certa encurta o prazo e corta juros. Estas são as fontes mais realistas de dinheiro extra.

  1. Revê as subscrições e os custos fixos. Lista todos os débitos diretos e pagamentos recorrentes dos últimos três meses e cancela o que não usas. Uma mudança feita uma vez poupa todos os meses.
  2. Usa os subsídios e o reembolso do IRS. Em Portugal, o ordenado é pago 14 vezes por ano, com os subsídios de férias e de Natal. Se os recebes à parte, decide antes de caírem que uma parte vai para a dívida que estás a atacar. O mesmo vale para o reembolso do IRS.
  3. Renegoceia com o banco. Se pagas em dia mas estás apertado, pergunta que soluções existem: alargar o prazo, baixar a taxa, trocar um descoberto por um crédito mais barato. Os bancos são obrigados a ter um plano de ação para o risco de incumprimento (PARI), e falar cedo dá mais opções.
  4. Consolida só se baixar o custo total. Juntar cartões e créditos pessoais num único crédito pode baixar a taxa. Compara a TAEG e o MTIC, o montante total que vais pagar, e não só a prestação. Uma prestação mais baixa com um prazo muito mais longo pode sair mais cara.
  5. Vende o que já não usas. Roupa no Vinted, um telemóvel antigo, a bicicleta parada na garagem. Uma entrada única pode fechar uma dívida pequena de uma vez.
  6. Tira o cartão de crédito do dia a dia. Enquanto for o cartão das compras do mês, a dívida volta. Desativa as compras online com ele na app do banco e paga com o cartão de débito ou com MB WAY.

O que fazer quando já não consegues pagar as prestações

Quando as prestações mínimas deixam de caber no ordenado, o problema já não é de método, é de negociação, e em Portugal a lei dá-te ferramentas para isso. A regra mais importante é simples: fala com o credor antes de falhares, não depois.

PERSI: o banco tem de negociar contigo

O PERSI (Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento) foi criado pelo Decreto-Lei n.º 227/2012. Se tens uma prestação de um crédito em atraso, o banco ou a financeira tem de te integrar no PERSI entre o 31.º e o 60.º dia depois do vencimento, avaliar a tua capacidade financeira e, se for viável, propor-te soluções. Enquanto o PERSI decorre, não pode resolver o contrato por incumprimento nem avançar com uma ação em tribunal. Podes também pedir para entrar mais cedo, se já sabes que não vais conseguir pagar.

RACE: apoio gratuito para negociar

A Rede Extrajudicial de Apoio ao Cliente Bancário (RACE) junta entidades reconhecidas pela Direção-Geral do Consumidor, com parecer do Banco de Portugal, que informam, aconselham e acompanham quem está em risco de incumprimento ou já tem prestações em atraso. O apoio é gratuito (Decreto-Lei n.º 227/2012) e a lista de entidades está no Portal do Consumidor e no Portal do Cliente Bancário. Levam o teu caso contigo, analisam as propostas do banco e ajudam-te a montar um orçamento realista.

PEAP e insolvência pessoal: o último recurso

Quando a negociação não chega, há duas vias judiciais. O Processo Especial para Acordo de Pagamento (PEAP), criado pelo Decreto-Lei n.º 79/2017 no Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas, serve para quem não é empresa, está em dificuldades económicas ou em insolvência iminente e quer chegar a um acordo com os credores. A insolvência de pessoa singular permite pedir a exoneração do passivo restante: durante um período de cessão de três anos (reduzido de cinco pela Lei n.º 9/2022), entregas ao fiduciário o rendimento acima do necessário para viver, e no fim as dívidas que ficaram por pagar podem ser perdoadas. Ficam de fora, entre outras, as dívidas às Finanças e à Segurança Social e as pensões de alimentos.

Mito vs. realidade

Mito: "Se falar com o banco, só vou piorar as coisas. É melhor esperar que passe."

Realidade: esperar é o que piora as coisas. Os juros de mora e os encargos começam a contar logo, e o atraso fica registado na Central de Responsabilidades de Crédito. Falar cedo dá-te mais opções, e a lei protege-te: durante o PERSI, o banco não pode resolver o contrato nem ir para tribunal (Decreto-Lei n.º 227/2012). Pedir ajuda não é falhar. É usar o sistema como ele foi desenhado.

Uma nota honesta: este guia é informação, não aconselhamento. Cada situação é diferente e, quando a dívida já não cabe no rendimento, quem te deve ajudar a decidir é uma entidade da RACE ou um advogado, não uma app.

Os 5 erros mais comuns ao sair das dívidas

Muita gente começa um plano de pagamento com energia e larga-o ao fim de uns meses. Quase sempre por um destes motivos, e nenhum deles é falta de força de vontade.

  1. Não ter nenhuma reserva. Se todo o euro livre vai para a dívida, a primeira avaria, o dentista ou um eletrodoméstico avariado voltam para o cartão. Primeiro a reserva pequena, depois o ataque.
  2. Pagar e voltar a dever. Enquanto o cartão de crédito pagar as compras do mês, a dívida regressa. Pagar e mudar o hábito têm de andar juntos.
  3. Esconder as dívidas do parceiro ou da parceira. Uma dívida escondida aparece quase sempre no pior momento e estraga a confiança. A conversa é difícil, mas um plano a dois anda mais depressa.
  4. Tratar a consolidação como a solução. Consolidar é uma ferramenta. Se depois voltares a usar os cartões que ficaram com o limite livre, daqui a dois anos tens o mesmo problema e mais um crédito.
  5. Não acompanhar o progresso. Se nunca vês a dívida a descer, o plano parece não andar. Ver o saldo baixar mês a mês é um dos melhores motivos para continuar.

Depois de fechares a última dívida, a prestação que ficou livre é o teu primeiro reforço de poupança. O guia sobre como criar um fundo de emergência mostra o passo seguinte.

Como acompanhar o pagamento das dívidas com a Martia

Uma das maiores barreiras para sair das dívidas é não ver onde estás. Com contas em dois ou três bancos e créditos em financeiras diferentes, saber se o plano está a andar obriga a entrar em várias apps, e muita gente simplesmente deixa de ver.

A Martia liga-se às tuas contas por open banking (PSD2, através da Enable Banking), só lê os dados e nunca mexe no dinheiro. Junta os movimentos das contas que ligares, põe cada pagamento na sua categoria, com as prestações em "Prestações e créditos", e responde em português a perguntas como "quanto paguei em prestações este ano?" ou "quanto me sobra depois das prestações?". Se tens contas em vários bancos, o guia várias contas bancárias num só sítio explica como isto funciona.

O que a Martia não faz: não negoceia com o banco, não te integra no PERSI e não substitui uma entidade da RACE. Custa 9 € por mês ou 59 € por ano, e num orçamento apertado isso também conta: só vale a pena se te ajudar a encontrar mais do que custa.

Vê a dívida descer, mês a mês

Pergunta à Martia, em português, "quanto paguei ao cartão este mês?" ou "onde posso encontrar mais 50 € para a dívida?", e recebe a resposta a partir das tuas transações. Sem folhas de cálculo e sem copiar movimentos à mão.

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Perguntas frequentes

Por onde começo para sair das dívidas?

Começa por fazer a lista completa de tudo o que deves: cartões de crédito, descobertos, créditos pessoais, crédito automóvel, pagamentos fracionados e dinheiro emprestado por família ou amigos. Para cada dívida, anota o saldo em dívida, a taxa de juro ou TAEG, a prestação mínima e a data em que acaba. O Mapa de Responsabilidades de Crédito do Banco de Portugal é gratuito e mostra os créditos registados em teu nome, o que ajuda a não esquecer nenhum. Sem esta lista não há plano, só palpites.

O que é o método bola de neve e funciona?

O método bola de neve consiste em pagar as dívidas da mais pequena para a maior, independentemente da taxa de juro. Pagas o mínimo em todas e pões todo o dinheiro extra na mais pequena; quando ela acaba, a prestação que ficou livre passa para a seguinte. Funciona sobretudo pela motivação: um estudo de David Gal e Blakeley McShane publicado no Journal of Marketing Research (2012), com dados de clientes de uma empresa de regularização de dívidas, concluiu que fechar contas de dívida, uma a uma, está associado a uma maior probabilidade de eliminar a dívida toda.

Qual é a diferença entre o método avalanche e o bola de neve?

O método avalanche paga primeiro a dívida com a taxa de juro mais alta, e o bola de neve paga primeiro a dívida com o saldo mais pequeno. A avalanche é a mais barata em juros, porque ataca primeiro o dinheiro que mais te custa. A bola de neve dá vitórias mais cedo, o que ajuda a não desistir. Se tens um cartão de crédito ou um descoberto com uma taxa bem acima das outras dívidas, a avalanche costuma compensar. Se precisas de ver resultados depressa para continuar, a bola de neve é uma escolha legítima.

Vale a pena consolidar créditos?

Só quando baixa o custo total, não apenas a prestação. Juntar cartões e créditos pessoais num único crédito pode simplificar a vida e baixar a taxa, mas uma prestação mais baixa vem muitas vezes de um prazo mais longo, e aí acabas a pagar mais no total. Compara a TAEG e o MTIC (montante total imputado ao consumidor) que constam da ficha de informação normalizada, e não só a prestação mensal. No 4.º trimestre de 2026, a TAEG máxima para crédito pessoal consolidado é de 15,0% (Banco de Portugal). E fecha ou reduz os limites dos cartões que consolidaste, senão voltam a encher.

Quanto tempo demora a sair das dívidas?

Depende do total, das taxas e de quanto consegues pagar além das prestações mínimas. Num exemplo ilustrativo com três dívidas que somam 9 400 € (900 € a 7%, 2 500 € a 18% e 6 000 € a 12%), pagar só os mínimos de 280 € por mês leva 48 meses e custa cerca de 2 600 € em juros. Juntando 150 € por mês de pagamento extra, a mesma dívida fica paga em 25 a 26 meses e os juros descem para cerca de 1 300 a 1 400 €. O valor extra conta mais do que o método escolhido.

O que faço se não consigo pagar as prestações?

Fala com o banco ou a financeira antes de falhares, não depois. Os bancos são obrigados a ter um plano para detetar o risco de incumprimento (o PARI) e, se já tens uma prestação em atraso, têm de te integrar no PERSI entre o 31.º e o 60.º dia depois do vencimento; enquanto o PERSI decorre, não podem resolver o contrato nem avançar para tribunal (Decreto-Lei n.º 227/2012). Podes ainda pedir apoio gratuito à Rede Extrajudicial de Apoio ao Cliente Bancário (RACE), cujas entidades estão listadas no Portal do Consumidor e no Portal do Cliente Bancário.

A insolvência pessoal apaga as dívidas?

Pode apagar parte, mas não tudo, e é o último recurso. Numa insolvência de pessoa singular, podes pedir a exoneração do passivo restante: durante um período de cessão de três anos (reduzido de cinco pela Lei n.º 9/2022), entregas ao fiduciário o rendimento acima do necessário para viver, e no fim as dívidas que ficaram por pagar podem ser perdoadas. Ficam de fora, entre outras, as dívidas às Finanças e à Segurança Social e as pensões de alimentos. Antes disso, quem não é empresa e ainda consegue negociar pode recorrer ao Processo Especial para Acordo de Pagamento (PEAP), criado pelo Decreto-Lei n.º 79/2017. Fala com um advogado ou com uma entidade da RACE antes de decidir.

Como acompanhar o progresso do pagamento das dívidas?

O mais simples é ver as contas e os pagamentos todos no mesmo sítio, em vez de entrar na app de cada banco. A Martia liga-se às tuas contas por open banking, só lê os dados e nunca mexe no dinheiro, põe cada pagamento numa categoria (as prestações ficam em Prestações e créditos) e responde em português a perguntas como "quanto paguei em prestações este ano?". Custa 9 € por mês ou 59 € por ano. Não substitui o banco, o PERSI nem a RACE: serve para veres, mês a mês, se o plano está a andar.

Fontes

  • Banco de Portugal (2026), taxas máximas aplicáveis aos contratos de crédito aos consumidores no 4.º trimestre de 2026, divulgadas pelo Jornal Económico, jornaleconomico.sapo.pt
  • Decreto-Lei n.º 227/2012, que cria o PARI, o PERSI e a rede extrajudicial de apoio a clientes bancários, pgdlisboa.pt
  • gov.pt, Recorrer à Rede Extrajudicial de Apoio ao Cliente Bancário (RACE), gov.pt
  • Banco de Portugal, Central de Responsabilidades de Crédito, bportugal.pt
  • Caixa Geral de Depósitos, Saldo Positivo (2023), Exoneração do passivo restante, sobre a Lei n.º 9/2022, cgd.pt
  • Decreto-Lei n.º 79/2017, que cria o Processo Especial para Acordo de Pagamento (PEAP), no léxico do Diário da República, diariodarepublica.pt
  • Mullainathan, S. e Shafir, E. (2013), Scarcity: Why Having Too Little Means So Much, Times Books, macmillan.com
  • Banco de Portugal (2025), Relatório de Acompanhamento dos Mercados de Crédito 2024, bportugal.pt
  • Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2024), Relatório do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa 2023, cnsf.com.pt
  • Gal, D. e McShane, B. B. (2012), Can Small Victories Help Win the War? Evidence from Consumer Debt Management, Journal of Marketing Research, 49(4), journals.sagepub.com

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